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Eu, agente político

Urnas fechadas (pelo menos onde segue o horário de Brasília) e desejo, realmente, que o vencedor consiga fazer um grande governo nos próximos quatro anos.

Não é fácil, durante uma campanha tão acirrada e disputada, manter a calma, a razão e fugir do clima de Fla X Flu. Foi um desafio diário. Não é fácil ouvir argumentos tão fracos, tão ignorantes e tão preconceituosos e não conseguir debatê-los. Muita gente não queria ouvir merda nenhuma, acha que seu ponto de vista é a verdade absoluta. Não é fácil não perder a paciência com amigos que mandam piadinhas sem graça contrárias à sua posição política ou familiares que entendem y quando você está falando x e acham que o z é o certo.

Apesar de acreditar que minha página no Facebook é um espaço meu, de pessoa física, que serve para expressar minhas opiniões e pontos de vista, em respeito à empresa de comunicação em que trabalho nunca declarei meu voto ou escrevi com todas as letras que candidato A era melhor que candidato B. Não recebi orientação para isso, mas tentei defender minha maneira de ver o mundo sem precisar explicitá-la, apenas compartilhando textos que contribuíssem para o debate político. Em alguns momentos me exaltei, algumas vezes apaguei, outras não.

Não é porque acabaram as eleições que vou deixar de debater política aqui. Vou continuar falando sobre o assunto, defendendo o que acho certo e criticando o que acho errado. Política se faz assim, todos os dias, não só na hora do voto. Aqui, quem escreve é o Marcos Andrade pessoa, não o jornalista. No exercício da minha profissão busco a imparcialidade. Imparcialidade e não neutralidade. É impossível você, com sua bagagem cultural e suas experiências de vida se manter neutro em qualquer assunto. Ao contar uma história, ela já foi filtrada e devolvida pelo seu cérebro, com influência de suas convicções, querendo você ou não. Já que a neutralidade é impossível, que nós, jornalistas, sejamos imparciais.

Tenho minha posição política formada e acho que ela vai mudar ao longo dos anos, com novas experiências vividas, com novos conhecimentos adquiridos. Hoje, sou um jornalista de 27 anos de idade, que nunca passou dificuldades financeiras porque sempre teve o apoio dos pais e que o único tipo de preconceito que sofreu foi a gordofobia. Mesmo sendo um “filhinho de papai”, formei meu caráter na sala de espera dos postos de saúde que meus pais trabalhavam. Lá eu via a miséria, via a fome, via a doença e via profissionais da saúde fazendo o possível e impossível para melhorar, o quanto podiam, a vida daquelas pessoas. Desde pequeno, nunca tive medo ou nojo da pobreza. Com 13, 14 anos, quando eu estava deslumbrado com o dinheiro e marcas famosas, minha mãe me fez acompanhar uma agente comunitária nas casas mais pobres do bairro mais pobre de Amparo. Vi casas sem saneamento básico, famílias de sete pessoas dividindo um cômodo menor do que meu quarto, crianças da minha idade sem nenhuma perspectiva positiva de futuro. No Natal seguinte me ofereci para ser Papai Noel nas festas de Natal daqueles postos. Também acompanhava minha irmã nas apresentações dos corais que ela regia com crianças carentes, seja na zona rural de Amparo ou na periferia de Campinas. O pagamento que ela recebia era o carinho e a admiração. Era o olhar das crianças de serem vistas e ouvidas quando estavam nos palcos, coisa que não acontecia quando elas saiam de lá. Com 15 anos já me considerava comunista e nunca me conformei em viver em um país onde uns tem e sobram e outros passam fome. Estudei em uma universidade estadual, conheci pessoas de várias regiões do Brasil, participei (bem porcamente, diga-se de passagem) de movimento estudantil e de um jornal de uma comunidade carente. No meu primeiro emprego como jornalista, vivenciei o desespero das famílias do Beco Mokarzel em Sousas, Campinas, ao verem suas casas sendo destruídas e tendo em troca o oferecimento de uma moradia em outro canto da cidade, pra lá da Rodovia dos Bandeirantes. Elas não deviam estar ali, a beira do rio Atibaia e em um dos bairros mais nobres de Campinas.

E por essa experiência de vida, por tudo que li, ouvi e discuti ao longo dos meus 27 anos, hoje não votei por mim e nem pelos meus iguais. Votei por aqueles que nunca foram olhados e tiveram uma melhora de vida. Espero que pelos próximos quatro anos diminuam todos os tipos de preconceitos, inclusive os partidários. Que as pessoas deixem o ódio de lado e passem a discutir soluções. Que não mirem nas pessoas, mas no que elas representam.

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Marcos André Andrade

Jornalista formado, ou deformado. Escritor frustrado. Boêmio. Amante de MPB e futebol. Adora fazer piadas ridículas. Sofro com uma Variação Constante de Humor.

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