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Um jornalista em crise

Parece que aquele 8 de março de 2006 foi ontem. O dia que fui chamado pela Unesp. Começava ali minha vida de jornalista. Tantos sonhos, tantas ilusões, tantos projetos. Iria mudar o mundo com as palavras. Tá bom, não era tão pretensioso assim, mas achava que poderia ajudar um pouco.

Não sei se minha decepção com o jornalismo foi instantânea ou gradual. Pode ser que veio junto com o comentário que ouvi ao acender o primeiro cigarro na faculdade: “Você fuma! Você vai ter câncer!”. O mito de que os jornalistas são todos fumantes terminava ali. Tudo bem que a pessoa que me disse isso passou a fumar durante a faculdade, mas os fumantes de minha turma eram a minoria. Geração saúde.

Mas, durante os quatro anos de jornalismo eu fui vendo que não mudaria o mundo com minhas palavras. Fui me prendendo em um idealismo ou outro. Fui me soltando de um sonho e outro. Acabei formado. Com um diploma na mão (no sentido figurado, pois o diploma ainda não chegou) que não vale nada, afinal, todos são jornalistas no Brasil.

Na faculdade confirmei que o jornalismo praticado na Grande Mídia não é o jornalismo que eu quero para mim. Não quero ser William Bonner, nem Wack, nem Carlos Nascimento, muito menos Boris Casoy. Se é para ser algum Boris prefiro ser o Yeltsin, não pelo poder, mas pelo nível alcoólico. Não consigo criar ídolos em minha profissão. Não sei se isso é normal. Talvez uma médica idolatre a Dra. Quinn ou o House. Nem na ficção tem jornalista que me comove.

Fiz jornalismo para tomar cerveja entrevistando travestis, para ir a um asilo conhecer a história de vida dos idosos que ali internados, para fazer jornal de bairro. Mas essas coisas não vão me sustentar. Dá para fazer um jornalismo alternativo e tirar dois mil por mês? Ou será que eu estou na profissão errada? Ou será que eu tenho que me vender pro convencional até ser contaminado e esquecer dos meus sonhos e do que eu queria para mim?

Não fiz jornalismo pra escrever pra quem não acredito. Não fiz jornalismo pra assessorar quem eu não acredito. Não fiz jornalismo pra ir contra minhas convicções e ideologias, muito pelo contrário, eu fiz para disseminá-las. Como eu vou me vender? Para que eu vou me vender? Qual é o preço disso? Mil e quinhentos por mês? Dois mil? Três mil? Quem dá mais?

Sou idealista demais para ser jornalista atualmente? Será que sou tão idealista assim?

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Marcos André Andrade

Jornalista formado, ou deformado. Escritor frustrado. Boêmio. Amante de MPB e futebol. Adora fazer piadas ridículas. Sofro com uma Variação Constante de Humor.

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